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Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência
Prof.ª Dr.ª Eliane Patrícia Cervelatti, bióloga, doutora em genética e professora dos cursos da área da saúde no Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium – UniSALESIANO, em Araçatuba (SP)

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência é celebrado hoje, 11 de fevereiro.  A data é um marco para a promoção da igualdade de direitos entre homens e mulheres em todos os níveis do sistema educacional, sobretudo nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Science, Technology, Engineering and Mathematics – STEM). De acordo com o Relatório de Ciências da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, publicado esta quinta-feira, em todo o mundo, as mulheres ainda representam apenas 28% dos graduados em engenharia e, em áreas altamente qualificadas, como inteligência artificial, apenas 22% dos profissionais são mulheres. 

 

Levando em conta este contexto, a bióloga, doutora em genética e professora dos cursos da área da saúde no Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium – UniSALESIANO, em Araçatuba (SP), Prof.ª Dr.ª Eliane Patrícia Cervelatti, concedeu à equipe de comunicação da Rede Salesiana Brasil uma entrevista em que conta um pouco da sua trajetória dentro desta área ainda predominantemente masculina. Confira:

 

RSB-Comunicação: O que te levou a buscar a carreira de cientista?

 

Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti: Creio que a curiosidade nata, a paixão pelos estudos. Entender a importância do conhecimento para a sociedade e, mais que isso, que ainda há muito a ser descrito. Poder colaborar nesse sentido é realmente incrível.

 

RSB-Comunicação:  Conte-nos um pouco sobre a sua experiência como cientista, sendo esta uma área ainda predominantemente masculina?

 

 Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti: Me deparei com o mundo científico ainda na graduação quando participei de programas de Iniciação Científica (PIBIC), isso foi sem dúvida decisivo na minha escolha pela área acadêmica. Embora ainda sejamos minoria, o que tenho visto é um número crescente de mulheres envolvidas com a ciência (tenho várias amigas da graduação como exemplo). Creio que a mulher tem muito a acrescentar, uma sensibilidade que aliada a eficiência traz um grande diferencial. Depois da conclusão do meu doutorado, retornei para Araçatuba e pude fazer parte de uma equipe que participou do projeto Genoma Bovino (o que foi uma experiência muito enriquecedora), além de participar de um projeto para o desenvolvimento de ferramentas para o diagnóstico molecular de doenças genéticas animais. Atualmente tenho a alegria de continuar desenvolvendo projetos científicos mesmo trabalhando em uma instituição particular, o que é um privilégio. Apresentar aos meus alunos esse mundo tão encantador que é o da ciência, é como reviver toda minha experiência na graduação quando iniciei minha jornada científica.

 

RSB-Comunicação: Quem são as suas inspirações no ramo científico? Conte-nos um pouco sobre como te influenciaram?

 

Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti: Uma grande inspiração, sem dúvida, foi a Dra. Luzia Doretto Pacola-Meirelles, minha orientadora na iniciação científica e no mestrado. Admirava seu conhecimento, autonomia, paixão pela pesquisa. Me ensinou muito além dos aspectos técnicos. Aprendi com ela que um verdadeiro cientista é capaz de desenvolver excelentes projetos independente da estrutura do seu laboratório, por exemplo. Aprendi também que é possível ser uma profissional bem-sucedida, esposa e mãe ao mesmo tempo. Lembro-que por várias vezes ela saiu do laboratório para preparar o lanche da tarde para seus filhos (ela retornava mais tarde e concluía com êxito tudo que havia proposto para aquele dia). Preciso falar também da minha orientadora do doutorado, a Dra. Nilce Maria Martinez-Rossi. Uma profissional muito competente que, apesar de parecer frágil a princípio, é uma mulher muito forte e, acima de tudo, muito justa. Ainda hoje quando preciso conversar sobre algo muito específico recorro a ela. Duas mulheres admiráveis fundamentais na minha formação científica. Me sinto abençoada pelo fato delas fazerem parte da minha vida.

 

RSB-Comunicação: Você tem alguma pesquisa em andamento? Se sim, conte-nos um pouco sobre ela.

 

Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti: Infelizmente devido a pandemia tudo está parado. No entanto, pretendo retomar as atividades assim que as normativas do governo permitirem. Desenvolvo projetos voltados para a caracterização molecular da bactéria Escherichia coli (através da utilização de técnicas moleculares de análise do DNA), bem como análise do seu perfil de sensibilidade a antimicrobianos (é fundamental conhecer o nível de variação genética de uma espécie, pois uma alta frequência na alteração do seu DNA pode favorecer o surgimento de novas cepas resistentes a antimicrobianos).

Mais recentemente (2015) fiz uma visita a trabalho a uma cidade ribeirinha no interior do Amazonas - Manicoré (AM), para conhecer a Farmácia Verde (onde o tratamento é 100% baseado no uso de plantas medicinais). Foi uma experiência tão transformadora que desde o meu retorno tenho estudado muito sobre isso e desenvolvido projetos que analisam as propriedades medicinais de algumas espécies vegetais amazônicas. Tem sido muito interessante porque pude usar o conhecimento obtido para testar algumas espécies que apresentaram ação antimicrobiana nas amostras de E. coli que se mostravam resistentes a antimicrobianos. Além disso, é fundamental destacar que alguns professores se uniram a mim no desenvolvimento de projetos para a análise de diferentes aspectos dessas plantas, o que resultou na publicação do livro “Conhecimento popular e ciência – uma parceria de sucesso no interior da Amazônia".

 

RSB-Comunicação: A que você atribui o baixo número de mulheres atuantes no campo da ciência?

 

Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti: Acredito que uma somatória de fatores colaboram para isso. Infelizmente muitas meninas não são incentivadas a estudar, outras engravidam ainda muito jovens e outras acreditam na conquista fácil dos seus sonhos. Creio que muitas não têm sequer a chance de fazer um curso de graduação devido a realidade financeira da sua família. Além disso, sabemos que para atuar no campo da ciência, além da graduação, é preciso fazer mestrado e doutorado (no mínimo), e isso não é tão fácil, embora plenamente possível!!! Acredito que todas temos uma capacidade de superação enorme e serei sempre uma grande incentivadora das alunas que me procuram para saber um pouco mais sobre a carreira científica.

 

RSB-Comunicação: O que você tem a dizer para as meninas que estão adentrando o ramo da ciência ou que têm interesse na área?

 

Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti: Que acreditem no seu potencial, que sejam persistentes, que não parem no meio do caminho e não desistam até conseguirem seus objetivos. Sei que somos muito cobradas e que, às vezes, se dedicar a vida acadêmica parece consumir tempo demais. Mas acredite, vai valer a pena todo seu esforço! Além disso, conversem com os professores da área de interesse, façam iniciação científica, participem de congressos, seminários, assimilem todo conhecimento possível. Uma observação importante: às vezes, pare e simplesmente vá fazer as unhas, cuidar dos cabelos e de si mesma! Depois volte imediatamente e não perca o foco... (risos).

 

Ao final da entrevista, a Prof.ª Dr.ª Eliane Cervelatti deixa um recado de incentivo a todas as meninas/mulheres do ramo científico:

 

"Seja seletiva quanto ao que vai ouvir. Ignore palavras que diminuam sua capacidade e seu valor e não se preocupe tanto em ser competitiva, em provar que é melhor que outra pessoa, mas concentre-se totalmente em desenvolver a sua melhor versão. Não pare enquanto não fizer a sua excelência! Saiba que a jornada será longa, mas que valerá a pena, e escreva sua história com cuidado, de forma que ao olhar para trás você se orgulhe dela!"

 

Fonte: RSB-Comunicação, com o apoio da Assessoria de Comunicação do UniSALESIANO e informações da ONU NewsUNESCO